Evidência importa porque um resultado estatístico só é defensável quando outra pessoa qualificada consegue reconstruir qual pergunta foi feita, quais observações a sustentam, o que foi estimado e onde a conclusão deve parar. Decida primeiro o que cada observação representa, qual efeito responde à pergunta em saúde e se as observações são independentes, pareadas, repetidas ou agrupadas. Registre essas decisões num contrato da análise — uma memória verificável da pergunta pretendida, não um documento jurídico nem papelada preenchida depois do resultado. Só então compare métodos e relate, juntos, efeito, incerteza, diagnósticos e limitações.

Proteja

A pergunta científica que a análise prometeu responder

Artefato

Ficha do caso totalmente sintético AURORA-30 (30 registros fictícios; não é evidência clínica) e validador estrutural

Pré-requisito

Pergunta, unidade, desfecho, dependência, justificativa amostral e revisão de ausências

Cadeia de evidências da análise em saúde
  1. 01
    PerguntaPopulação · desfecho · tempo
  2. 02
    EstruturaUnidade · dependência · ausências
  3. 03
    MétodoEfeito · suposições · diagnósticos
  4. 04
    RelatoEstimativa · intervalo · limitação
O nome do teste aparece somente depois de explicitar pergunta, unidade, desfecho, dependência e efeito-alvo; a interpretação mantém incerteza e limitações vinculadas.

Um motivo concreto para parar

Trinta registros, uma pergunta vaga, várias respostas incompatíveis#

Trilha de evidênciaFonte 1

A AURORA-30 é um conjunto de dados didático totalmente sintético: 30 registros fictícios construídos para treinamento em métodos. Não contém pacientes, instituições, intervenções ou resultados clínicos reais, e nenhum cálculo feito com esses dados constitui evidência clínica. No cenário, adultos são acompanhados por 30 dias após um programa padronizado de alta ou o cuidado usual. Uma colega envia escores de sintomas no início e no dia 30 e pergunta: “O programa ajudou?”. A tentação é abrir o menu de testes e comparar as duas colunas numéricas que estiverem à vista.

As linhas, porém, não decidem a pergunta. Um contraste entre grupos no dia 30 compara programa e cuidado usual; um contraste entre início e dia 30 pergunta se as mesmas pessoas mudaram ao longo do tempo; comparar a mudança entre grupos pergunta se essas trajetórias diferiram. Os três caminhos podem produzir contas corretas e ainda sustentar frases diferentes no relato. Sem uma trilha explícita, a análise pode começar com uma pergunta e publicar a resposta de outra sem que nenhum erro de software anuncie a troca.

Por que a evidência vem antes da técnica

O resultado precisa carregar o caminho que lhe dá sentido#

Trilha de evidênciaFonte 1Fonte 2Fonte 3Fonte 6

Em pesquisa em saúde, o risco prático não se limita a escolher o teste errado num menu. A unidade de análise, o momento da comparação, o tratamento das ausências, o efeito-alvo ou a afirmação principal podem mudar enquanto o trabalho avança. Um p-valor preciso não corrige esse desvio; pode apenas dar mais autoridade à resposta científica errada.

Uma trilha de evidências mantém conectadas a pergunta, as decisões sobre os dados, a estimativa, as suposições, os diagnósticos e os limites. Ela permite que uma colega ou revisora reconstrua a rota, conteste uma incompatibilidade e distinga uma conclusão pré-especificada de um achado exploratório. O rigor técnico importa porque cada número herda sentido dessas decisões — não porque complexidade tenha valor por si só.

Comece antes do software

Escreva a pergunta e o efeito-alvo#

Trilha de evidênciaFonte 2

Uma pergunta como “a intervenção funciona?” ainda não é um contrato de análise. Nomeie população, intervenção ou exposição, comparação, desfecho, tempo e o efeito que pretende estimar. Diferença de médias no dia 30, razão de chances durante o acompanhamento e contraste de sobrevivência são alvos distintos, mesmo quando vêm do mesmo conjunto de dados.

O estimando conecta a pergunta científica ao que a análise deve estimar. O ICH E9(R1) formaliza essa ligação para ensaios clínicos; fora desse escopo, a mesma disciplina continua útil, mas não transforma uma comparação observacional em efeito causal.

O desenho muda o método

Conte unidades, não linhas#

Trilha de evidênciaFonte 1
  1. 01

    Grupos independentes

    Pessoas ou unidades independentes contribuem para cada grupo.

  2. 02

    Observações pareadas

    A mesma pessoa ou um par combinado contribui com duas medidas vinculadas.

  3. 03

    Medidas repetidas

    Vários tempos ou condições pertencem à mesma unidade e compartilham correlação.

  4. 04

    Conglomerados

    As pessoas também podem estar agrupadas em clínicas, domicílios, enfermarias ou centros.

O registro das decisões

Transforme escolhas ocultas numa ficha analítica de uma página#

Trilha de evidênciaFonte 2Fonte 3

Agora o contrato tem motivo para existir: é uma memória curta e verificável das decisões que impede a pergunta original de mudar silenciosamente enquanto a análise é construída. Registre escala do desfecho, número de grupos ou tempos, dependência, efeito-alvo, justificativa do tamanho amostral, plano para dados ausentes, conjunto de afirmações que pode exigir controle de multiplicidade, diagnósticos e itens obrigatórios do relato. Separe afirmações primárias e pré-especificadas de comparações exploratórias. Campos vazios são úteis porque expõem decisões ainda não tomadas.

O contrato da análise não é um documento jurídico, não escolhe o método automaticamente e não é papelada preenchida depois do resultado. Ele reduz as opções defensáveis antes da execução e oferece contexto para a revisão contestar incompatibilidades — por exemplo, um teste para amostras independentes aplicado a medidas repetidas da mesma pessoa.

Implementação de referência

Preserve a pergunta antes de escolher o método

A AURORA-30 é totalmente sintética. Seu JSON torna revisáveis a pergunta e as decisões de desenho antes da execução; o verificador sem dependências detecta campos ausentes ou estrutura incoerente. Os identificadores em inglês são nomes literais do contrato compartilhado, não prosa para o leitor. O código não recomenda um método estatístico.

analysis-contract.json
{
  "study_id": "AURORA-30",
  "question": {
    "population_id": "eligible_participants",
    "outcome_id": "symptom_score_day_30",
    "comparison_ids": ["discharge_program", "usual_care"],
    "estimand_id": "mean_difference_day_30_program_minus_usual_care"
  },
  "structure": {
    "unit": "participant",
    "between_groups": "independent",
    "baseline_followup": "paired",
    "missingness_reviewed": true
  },
  "planning": {
    "sample_size_justification_id": "precision_for_target_effect",
    "primary_claim_ids": ["day_30_mean_difference"],
    "exploratory_comparisons_labeled": true
  },
  "report": {
    "required": ["estimate", "confidence_interval", "diagnostics", "limitation"],
    "causal_claim_allowed": false
  }
}
Executepython check_contract.py analysis-contract.json
Saída esperada
AURORA-30 | structural analysis-contract check
supplied_contract: READY_FOR_METHOD_REVIEW
pairing_regression_probe: HOLD
  - baseline and follow-up must remain paired within participant
missing_planning_probe: HOLD
  - planning.sample_size_justification_id is required
  - planning.primary_claim_ids must name at least one primary claim
  - exploratory comparisons must be labeled
causal_claim_regression_probe: HOLD
  - report.causal_claim_allowed must remain false for this teaching case
scope: structural planning aid; no method selection or clinical authorization

Falha exercitada. A sonda de regressão embutida rotula início e seguimento como independentes. O verificador retorna HOLD porque as duas observações pertencem à mesma pessoa.

Limite de produção. O artefato verifica apenas a estrutura do planejamento. A revisão que considera o desenho continua responsável pela escolha do método, pela interpretação e por qualquer uso com dados reais em saúde.

Suposições são afirmações sobre o desenho

Diagnostique o modelo, não a normalidade por ritual#

Trilha de evidênciaFonte 4Fonte 5

Um p-valor alto num teste de normalidade não prova normalidade, e um p-valor baixo não obriga automaticamente a usar um teste de postos. Considere desenho, estrutura dos resíduos, tamanho amostral, valores atípicos, assimetria, padrão de variâncias, escala de medida e qual parâmetro o método realmente estima. Quando forem pertinentes ao modelo selecionado, use gráficos quantil–quantil e de resíduos versus valores ajustados como diagnósticos — não como prova mecânica de que as suposições valem.

Métodos baseados em postos não são genericamente “testes de medianas”. Conforme o método e suas suposições, eles podem tratar de ordenação entre distribuições, probabilidade de superioridade ou deslocamento de localização; um contraste de medianas exige condições adicionais. Quando as suposições forem duvidosas, considere um método que mire o efeito mais diretamente, uma análise robusta ou uma análise de sensibilidade pré-especificada.

Pacote de interpretação

Não deixe o p-valor viajar sozinho#

Trilha de evidênciaFonte 3Fonte 6
  1. 01

    Estimativa

    Declare o efeito na escala compatível com a pergunta e o desenho.

  2. 02

    Intervalo

    Mostre a incerteza ao redor da estimativa.

  3. 03

    Diagnósticos

    Registre as verificações importantes para o método selecionado.

  4. 04

    p-valor

    Use-o somente quando um teste de hipótese pré-especificado for pertinente.

  5. 05

    Limitação

    Nomeie o que desenho, dados ausentes, viés ou dados não conseguem estabelecer.

Limite de escopo

Uma análise coerente não é autorização clínica#

Trilha de evidênciaFonte 2Fonte 6Fonte 7

PODE

  • Expor por que o método combina com a pergunta e o desenho
  • Prevenir erros comuns entre análises independentes e pareadas
  • Manter efeito, intervalo, diagnósticos e limitações juntos
  • Tornar revisáveis os desvios do plano de análise

NÃO PODE

  • Consertar amostragem enviesada ou um processo de medida inválido
  • Criar evidência causal apenas pela associação
  • Substituir ética, conhecimento do domínio ou julgamento clínico
  • Garantir que a estimativa seja válida em outra população

Checklist reutilizável

Doze perguntas antes de nomear o método#

  • Qual é a pergunta e o estimando?
  • Qual população e unidade de análise estão representadas?
  • Qual é o tipo e a escala do desfecho?
  • Quantos grupos, tempos ou condições existem?
  • As observações são independentes, pareadas, repetidas ou agrupadas?
  • Como a amostra foi obtida, como seu tamanho foi justificado e quais vieses são plausíveis?
  • Dados ausentes, valores atípicos, unidades, datas e códigos foram revisados?
  • Quais suposições são razoáveis segundo desenho e dados?
  • A análise foi pré-especificada, quais afirmações são primárias ou exploratórias e quantas comparações estão previstas?
  • Qual método estima diretamente o efeito-alvo?
  • Qual efeito, intervalo e diagnóstico acompanham o resultado?
  • Quais limitações impedem afirmações causais ou mais amplas?

Conclusão

Preserve a pergunta, não apenas o resultado#

Trilha de evidênciaFonte 1Fonte 2Fonte 3Fonte 6

A lição central não é que toda análise em saúde precise de um método mais sofisticado. É que os mesmos dados podem sustentar várias análises matematicamente corretas, enquanto apenas uma corresponde à pergunta que o estudo prometeu responder. Por isso, um resultado defensável carrega sua rota: pergunta, unidade, efeito-alvo, suposições, decisões sobre os dados, estimativa, incerteza, diagnósticos e limites.

Antes de nomear o método, escreva em uma frase quem será comparado, em qual desfecho, em que momento e por meio de qual efeito. Se outra pessoa qualificada não conseguir reconstruir a mesma análise a partir dessa frase e do registro de decisões, o trabalho ainda não está pronto para o menu de testes. O contrato demonstra seu valor ao revelar essa lacuna cedo — quando ainda é possível corrigir a pergunta sem reescrever o resultado.

Fontes primárias

Fontes primárias

  1. Altman e Bland: Statistics notes—Units of analysis

    Mostra por que a unidade de observação não se confunde com a quantidade de valores na tabela.

  2. ICH E9(R1): Estimands and Sensitivity Analysis

    Conecta objetivos, estimandos, eventos intercorrentes, observações ausentes e análise de sensibilidade em ensaios.

  3. Diretrizes SAMPL

    Orienta análise e relato estatísticos, inclusive estimativas, incerteza e descrição transparente dos métodos.

  4. Altman e Bland: Parametric v non-parametric methods for data analysis

    Explica por que a escolha deve seguir o parâmetro de interesse e o problema distributivo, não um ritual de teste de normalidade.

  5. Fay e Proschan: Wilcoxon–Mann–Whitney or t-test?

    Detalha interpretações distintas do procedimento de Wilcoxon–Mann–Whitney sob diferentes suposições.

  6. Declaração da ASA sobre p-valores

    Explica o que p-valores medem, o que não medem e por que transparência e relato completo importam.

  7. Biblioteca de diretrizes da Rede EQUATOR

    Direciona diretrizes de relato conforme desenho e tipo de pesquisa.

De um checklist a um registro completo de evidências

Construa a análise da pergunta ao relato auditável.